Brasil é o País mais dependente de Praia

Nenhum país do tamanho do Brasil é tão dependente de praia quanto o Brasil. Se a Austrália é uma ilha que se pretende um continente, o Brasil é um continente que se comporta como uma ilha. Somos a única civilização deste planeta que considera “não ter praia” o primeiro defeito de qualquer cidade. São Paulo é chata porque não tem praia. Brasília é um porre porque não tem praia. Belo Horizonte só não é perfeita porque não tem praia. Porto Alegre é infeliz porque não tem praia. Curitiba vai ser eternamente polaca porque não tem praia. (Florianópolis é o máximo porque tem praia.

Salvador, Recife e Fortaleza são invejáveis porque têm praia. O Rio só não acabou porque ainda tem praia. Maceió é politicamente tão complicada — mas que mar lindo, não?)

É preciso ser mineiro, goiano, mato-grossense ou indefensavelmente interiorano para não morar a no máximo 200 quilômetros de uma praia. (Até Manaus tem praia. De rio, mas tem.) Temos não somente matéria-prima em abundância, como acima de tudo uma cultura praiana singular.

A vocação marítima dos portugueses se transformou, em areias brasileiras, em vocação balneária. Ditamos a moda em roupas de banho, inventamos o frescobol (beach tennis), o futebol de areia (beach soccer) e o futevôlei (beach nada, por enquanto). Caprichamos até na trilha sonora: das canções praieiras de Dorival Caymmi ao sal-sol-sul da bossa nova, nenhum povo cantou tão bem os prazeres da vida à beira-mar.

Quando vamos à praia, estamos exercendo nossa brasilidade, mais ou menos como um francês demonstra seu civismo ao comer escargot. Somos a única raça de nossa espécie que não conseguiria sobreviver sem água salgada. O primeiro sonho de consumo de toda família de classe média sempre édia s foi uma casa na praia.

Podem privatizar as telefônicas, as distribuidoras de energia e até a Petrobrás, mas uma coisa o brasileiro nunca permitirá: que a praia deixe de ser pública. Nossas praias não são apenas praias — são praças, são parques, são verdadeiros tratados de antropologia em 3-D. Nossas praias são a sala de estar metafórica da nação.

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